Síndrome Nefrítica: fisiopatologia, diagnóstico e abordagem clínica

Síndrome nefrítica são alterações secundárias a inflamação glomerular aguda, caracterizada por hematúria, proteinúria não nefrótica e redução função renal.
A síndrome nefrítica é um conjunto de manifestações clínicas derivadas de inflamação glomerular aguda, caracterizada principalmente por hematúria, proteinúria não nefrótica e redução da taxa de filtração glomerular.

A síndrome nefrítica é um conjunto de manifestações clínicas derivadas de inflamação glomerular aguda, caracterizada principalmente por hematúria, proteinúria não nefrótica e redução da taxa de filtração glomerular. Trata-se de uma condição comum na prática nefrológica, podendo ocorrer em todas as faixas etárias, embora seja mais frequente em crianças e adultos jovens. A identificação precoce e o manejo adequado são fundamentais para evitar danos renais permanentes. https://www.miglimed.com.br/nefrologia/

Definição e características clínicas

A síndrome nefrítica é definida pela presença de:

1.Hematúria — frequentemente macroscópica, resultando em urina “cor de coca-cola”.

2.Proteinúria moderada — geralmente inferior a 3,5 g/dia.

3.Edema — devido à retenção hidrossalina por queda brusca da filtração glomerular.

4.Hipertensão arterial — comum e pode ser grave.

5.Redução da taxa de filtração glomerular — podendo levar a oligúria e, em casos severos, insuficiência renal aguda.

Esses achados resultam de inflamação glomerular, com proliferação celular e obstrução dos capilares, o que compromete a filtração renal.

Fisiopatologia

A síndrome nefrítica decorre de inflamação glomerular, geralmente mediada por imunocomplexos ou anticorpos dirigidos contra estruturas glomerulares.

1. Deposição de imunocomplexos: Ocorre em condições como glomerulonefrite pós-estreptocócica, lúpus eritematoso sistêmico e glomerulonefrite por IgA. Esses imunocomplexos ativam o complemento, levando à inflamação glomerular.

2. Anticorpos anti-membrana basal glomerular: Observados na síndrome de Goodpasture, esses anticorpos causam agressão direta à membrana basal glomerular.

3. Vasculites associadas a ANCA: Como granulomatose com poliangiite, elas promovem inflamação e necrose dos capilares glomerulares.

4. Proliferação celular: A inflamação estimula hiperplasia das células endoteliais e mesangiais, reduzindo o lúmen capilar e diminuindo a taxa de filtração.

Esses processos resultam nas manifestações clínicas características: hematúria, oligúria, edema e hipertensão.

Etiologia

As causas da síndrome nefrítica podem ser classificadas como agudas ou crônicas.

1. Causas agudas

• Glomerulonefrite pós-infecciosa (GNPE)

Ainda a causa mais comum em crianças. Geralmente associada a infecções por Streptococcus beta-hemolítico do grupo A.

• Glomerulonefrite rapidamente progressiva (GNRP)

Inclui crescentes glomerulares, frequentemente associadas a ANCA ou anti-MBG.

• Nefropatia por IgA (Doença de Berger)

Pode apresentar surtos de hematúria macroscópica pós-infecciosa.

• Vasculites sistêmicas(púrpura de Henoch-Schönlein ou granulomatose com poliangiite)

2. Causas crônicas

• Lúpus eritematoso sistêmico

• Glomerulonefrite membranoproliferativa

• Doenças hereditárias como síndrome de Alport

O conhecimento da etiologia é crucial para o tratamento específico.

Quadro clínico

A síndrome nefrítica costuma se manifestar com:

1. Hematúria: É a marca registrada da síndrome. Frequentemente macroscópica, pode apresentar cilindros hemáticos e dismorfismo eritrocitário, caracterizando origem glomerular.

2. Edema: Inicia-se geralmente em região periorbitária ao despertar, podendo evoluir para edema generalizado.

3. Hipertensão: Decorrente da retenção de sódio e água. Pode ocasionar sintomas como cefaleia e alterações visuais.

4. Oligúria e azotemia: A inflamação reduz a filtração glomerular, podendo causar insuficiência renal aguda.

5. Sintomas sistêmicos: Febre, mal-estar, artralgias e exantema podem indicar causas infecciosas ou autoimunes.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico e laboratorial, guiado pelo contexto clínico.

Exames laboratoriais

• Urina tipo I: hematúria glomerular, proteinúria moderada e cilindros hemáticos.

• Função renal: ureia e creatinina frequentemente elevadas.

• Complemento (C3 e C4): reduzido em muitas causas imunológicas.

• Sorologias: anti-estreptolisina O (ASLO), anti-DNA, ANCA, anti-MBG.

• Hemograma: pode mostrar anemia ou leucocitose.

Biópsia renal

Indicada quando o diagnóstico não é claro, quando há evolução rápida da insuficiência renal ou quando há suspeita de vasculite ou doença autoimune.

Tratamento

A abordagem depende da etiologia e da gravidade:

1. Tratamento de suporte

•Controle da pressão arterial com anti-hipertensivos (preferencialmente bloqueadores do sistema renina-angiotensina).

•Restrição de sal e diuréticos para controle de edema.

• Controle da ingesta hídrica em casos de oligúria.

2. Terapia imunossupressora

Indicada em casos de:

• GN rapidamente progressiva,

• Vasculites ANCA-positivas,

• Síndrome de Goodpasture,

• Nefrite lúpica.

Fármacos utilizados: corticosteroides, ciclofosfamida, rituximabe, micofenolato mofetil.

3. Tratamento da causa desencadeante

• Antibióticos na GN pós-estreptocócica.

• Controle de doenças sistêmicas como lúpus ou vasculites.

Prognóstico

O prognóstico depende fortemente da etiologia e da rapidez do tratamento.

• GN pós-estreptocócica apresenta excelente evolução, sobretudo em crianças.

• Glomerulonefrites com crescentes têm potencial de progressão rápida para insuficiência renal terminal.

• Lúpus e vasculites necessitam de tratamento prolongado e acompanhamento rigoroso.

A identificação precoce de hipertensão, oligúria e declínio da função renal é essencial para reduzir sequelas.

Conclusão

A síndrome nefrítica representa um espectro de doenças glomerulares inflamatórias com manifestações clínicas marcantes, como hematúria, edema, hipertensão e redução da função renal. Seu manejo exige abordagem sistemática, identificação da etiologia e tratamento adequado, que muitas vezes inclui imunossupressão. A compreensão de seus mecanismos fisiopatológicos e das possíveis causas permite intervenções mais precisas e melhora os desfechos clínicos.

Referências Bibliográficas

1.KDIGO Clinical Practice Guideline for Glomerulonephritis. Kidney International Supplements. 2012. https://kdigo.org/guidelines/gd/

2.Floege J, Johnson RJ, Feehally J. Comprehensive Clinical Nephrology. 6th ed. Elsevier; 2019.

3.Couser WG. Pathogenesis of glomerulonephritis. Nat Rev Nephrol. 2012;8(12):752–760.

4.Rodríguez-Iturbe B, Haas M. Post-infectious glomerulonephritis. Clin J Am Soc Nephrol. 2017;12:1083–1091.

5.Jennette JC, Falk RJ. Small-vessel vasculitis. N Engl J Med. 1997;337:1512–1523.