A Desnutrição ocorre em pacientes com doença renal crônica porque esta causa uma série de alterações metabólicas que afetam profundamente o estado nutricional do paciente. Entre as complicações mais relevantes está a desnutrição energético-proteica (DEP), também chamada de caquexia urêmica ou desnutrição proteico-calórica. Ela é extremamente comum nos pacientes com função renal reduzida e ainda mais prevalente em indivíduos em diálise.
Estima-se que até 40% dos pacientes com DRC não dialítica e até 70% dos pacientes em hemodiálise apresentem algum grau de desnutrição. Esse quadro está associado a maior risco de infecções, hospitalizações, perda de massa muscular, pior qualidade de vida e aumento significativo da mortalidade. https://miglimed.com.br/doenca-renal-cronica-causas-sintomas-e-prevencao/
Por que ocorre desnutrição na DRC?
A desnutrição na DRC é multifatorial. Diversos mecanismos contribuem para a redução da ingestão e utilização de nutrientes:
1. Perda de apetite (anorexia urêmica)
O acúmulo de toxinas urêmicas reduz o apetite e altera o paladar, levando à menor ingestão alimentar. Pacientes relatam gosto metálico, náuseas e aversão a certos alimentos.
2. Restrição dietética excessiva
O medo de “comer errado”, somado a recomendações mal orientadas, pode levar pacientes a restringirem demais proteínas, potássio ou fósforo, resultando em déficit calórico significativo.
3. Catabolismo aumentado
A inflamação crônica presente na DRC aumenta o catabolismo proteico, levando à perda muscular e piora do estado nutricional.
4. Acidose metabólica
A acidose acelera a degradação das proteínas musculares, contribuindo para perda de massa magra.
5. Comorbidades associadas
Doenças como diabetes, insuficiência cardíaca, depressão e infeções frequentes reduzem o apetite e aumentam o gasto energético.
6. Problemas gastrointestinais
Náuseas, vômitos, refluxo e gastroparesia (especialmente em diabéticos) comprometem a ingestão alimentar.
7. Perdas nutricionais durante a diálise
A hemodiálise remove aminoácidos, vitaminas hidrossolúveis e pequenas quantidades de proteínas, enquanto a diálise peritoneal aumenta a perda proteica pelo peritônio.
Principais sinais e sintomas de desnutrição
A desnutrição na DRC nem sempre é imediatamente evidente. Entre os sinais mais comuns estão:
- perda de peso não intencional
- fraqueza muscular
- perda de massa muscular e gordura corporal
- edema (que pode mascarar perda de peso)
- queda de cabelo e unhas frágeis
- apatia, fadiga e menor resistência física
- risco aumentado de infecções
Em fases avançadas, pode ocorrer caquexia, caracterizada por fraqueza extrema, perda acelerada de massa muscular e inflamação sistêmica.
Diagnóstico: como detectar desnutrição em pacientes renais
O diagnóstico deve ser multifatorial, combinando avaliação clínica, laboratorial e antropométrica.
Ferramentas utilizadas:
- Avaliação Global Subjetiva (AGS ou SGA)
- MIS (Malnutrition-Inflammation Score)
- Medidas antropométricas (IMC, circunferência braquial, prega cutânea)
- Força de preensão palmar
- Consumo alimentar habitual
- Exames laboratoriais:
- albumina
- pré-albumina
- creatinina sérica (reflete massa muscular)
- proteína C-reativa (PCR) como marcador inflamatório
Nenhum parâmetro isolado é suficiente, por isso a abordagem integrada é sempre recomendada.
Consequências da desnutrição na DRC
A desnutrição aumenta substancialmente o risco de complicações. Entre as principais consequências estão:
1. Redução da imunidade
Pacientes desnutridos apresentam maior tendência a infecções, como pneumonia e infecções no acesso dialítico.
2. Redução da massa muscular e capacidade funcional
A sarcopenia renal compromete a mobilidade, aumenta risco de quedas e reduz a independência.
3. Maior mortalidade
Estudos mostram que pacientes renais desnutridos têm risco até 3 vezes maior de morte.
4. Pior resposta ao tratamento dialítico
A desnutrição está associada a hospitalizações mais longas, maior inflamção e quedas na qualidade de vida.
5. Cicatrização lenta e risco aumentado de úlceras por pressão
Tratamento: como combater a desnutrição na DRC
O manejo nutricional é uma das estratégias mais importantes no cuidado ao paciente renal.
1. Avaliação nutricional individualizada
O acompanhamento com nutricionista especializado em nefrologia é essencial. A ingestão de nutrientes deve ser ajustada conforme o estágio da DRC e a presença de diálise.
2. Aporte proteico adequado
Recomendações atuais:
- DRC estágios 3–5 não dialíticos: 0,6–0,8 g/kg/dia
- Hemodiálise: 1,0–1,2 g/kg/dia
- Diálise peritoneal: 1,2–1,3 g/kg/dia
3. Suplementação nutricional
Quando a ingestão oral é insuficiente, utilizam-se suplementos específicos para pacientes renais, ricos em calorias e pobres em eletrólitos.
4. Correção da acidose metabólica
O uso de bicarbonato de sódio reduz o catabolismo muscular e melhora o estado nutricional.
5. Controle da inflamação
Tratar processos infecciosos, otimizar o tratamento dialítico e ajustar a dieta são medidas que reduzem o estado inflamatório.
6. Estímulo à atividade física
O exercício supervisionado ajuda a preservar a massa muscular e melhora o apetite.
7. Suporte psicológico
A perda de apetite pode estar associada a depressão ou ansiedade, que devem ser tratadas adequadamente.
Prevenção: o papel do acompanhamento contínuo
A melhor estratégia para evitar desnutrição é o acompanhamento contínuo. A avaliação nutricional deve ser feita:
- a cada 3–6 meses na DRC não dialítica
- mensalmente na hemodiálise
- trimestralmente na diálise peritoneal
O cuidado multidisciplinar — nefrologista, nutricionista, psicólogo e equipe de enfermagem — é fundamental para reduzir complicações e melhorar a sobrevida do paciente renal.
Conclusão
A desnutrição na Doença Renal Crônica é uma das complicações mais frequentes e impactantes, afetando a qualidade de vida, a capacidade funcional e a sobrevida dos pacientes. Por ser multifatorial, seu manejo deve ser abrangente e individualizado, envolvendo dieta adequada, correção das alterações metabólicas, controle da inflamação, suporte emocional e suplementação quando necessário.
Com diagnóstico precoce e intervenção nutricional adequada, é possível preservar a massa muscular, melhorar o apetite e reduzir riscos associados, garantindo maior bem-estar ao paciente com DRC.
Referências bibliográficas
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