Acidose Metabólica na Doença Renal Crônica: causas, consequências e tratamento

Entenda o que é acidose metabólica na doença renal crônica, suas causas, riscos e como o tratamento ajuda a retardar a progressão da DRC.
Acidose Metabólica na Doença Renal Crônica: causas e tratamento

A Doença Renal Crônica (DRC) é marcada pela perda progressiva e irreversível da função renal, comprometendo a capacidade dos rins de manter o equilíbrio interno do corpo. Uma das complicações metabólicas mais relevantes e muitas vezes subestimadas é a acidose metabólica, uma condição em que há excesso de ácido ou perda de bicarbonato no sangue, levando à redução do pH sanguíneo.

A acidose metabólica na DRC vai além de um simples desequilíbrio químico — ela está associada à aceleração da perda da função renal, redução da massa muscular e óssea, resistência à insulina, inflamação sistêmica e aumento do risco cardiovascular. https://miglimed.com.br/doenca-renal-cronica-causas-sintomas-e-prevencao

O que é acidose metabólica?

O pH sanguíneo normal varia entre 7,35 e 7,45, faixa essencial para o bom funcionamento das células.

  • Os rins eliminam ácidos e regeneram bicarbonato (HCO₃⁻).
  • Os pulmões eliminam dióxido de carbono (CO₂), outro componente ácido.

Quando os rins falham em eliminar o excesso de ácido ou em repor bicarbonato, o pH cai — configurando a acidose metabólica.

Por que ocorre na Doença Renal Crônica?

À medida que a taxa de filtração glomerular (TFG) diminui, os rins perdem a capacidade de excretar íons hidrogênio (H⁺) e de produzir amônia (NH₃), substância essencial para eliminar ácidos.

Além disso, há menor reabsorção de bicarbonato e aumento da produção de ácidos pelo metabolismo das proteínas.

Principais causas da acidose na DRC:

  1. Redução da excreção de ácidos fixos;
  2. Diminuição da produção de amônia;
  3. Perda da regeneração de bicarbonato;
  4. Dieta rica em proteínas e fósforo;
  5. Inflamação crônica e resistência à insulina.

A condição torna-se mais frequente nos estágios 4 e 5 da DRC (TFG < 30 mL/min/1,73 m²).

Consequências da acidose metabólica

A acidose crônica é silenciosa, mas causa danos significativos e sistêmicos:

 1. Progressão da DRC

A acidose acelera o declínio da função renal, promovendo inflamação e fibrose nos túbulos renais. Estudos mostram que níveis baixos de bicarbonato (< 22 mEq/L) estão ligados à maior necessidade de diálise.

 2. Perda de massa muscular

O excesso de ácido estimula o catabolismo proteico, levando à sarcopenia e à fadiga.

 3. Comprometimento ósseo

Para neutralizar o ácido, o corpo mobiliza sais alcalinos dos ossos (cálcio e fosfato), favorecendo osteoporose e doença mineral e óssea da DRC (DMO-DRC).

 4. Efeitos cardiovasculares

A acidose promove resistência à insulina, aumento da pressão arterial e disfunção cardíaca, elevando o risco de eventos cardiovasculares.

Diagnóstico da acidose metabólica na DRC

O diagnóstico é laboratorial e envolve:

  • Bicarbonato sérico: abaixo de 22 mEq/L confirma acidose;
  • pH arterial: menor que 7,35;
  • Ânion gap: ajuda a identificar o tipo e a causa da acidose;
  • Monitoramento regular: essencial em pacientes com DRC moderada ou grave.

Sintomas mais comuns

Nos estágios iniciais, a acidose metabólica é frequentemente assintomática. Com a progressão, podem surgir:

  • Fadiga e fraqueza;
  • Perda de apetite;
  • Dificuldade respiratória leve;
  • Dores musculares;
  • Em casos graves, confusão mental e arritmias.

Esses sintomas se confundem com os da DRC, por isso é crucial o acompanhamento laboratorial.

Tratamento da acidose metabólica na DRC

O tratamento visa restabelecer o equilíbrio ácido-base, melhorar o metabolismo e retardar a progressão da DRC.

 1. Terapia alcalinizante

A suplementação com bicarbonato de sódio oral é o tratamento mais utilizado.

  • Dose inicial: 0,5 a 1,0 mEq/kg/dia, dividida em duas a três doses.
  • Meta: manter o bicarbonato sérico entre 22 e 26 mEq/L.

Nos casos com restrição de sódio, pode-se usar citrato de sódio ou potássio, com cautela.

 2. Ajustes alimentares

A dieta exerce papel fundamental:

  • Reduzir proteínas de origem animal;
  • Aumentar o consumo de frutas e vegetais (efeito alcalinizante);
  • Evitar excesso de sal e alimentos processados;
  • Manter acompanhamento com nutricionista renal.

 3. Diálise

Nos estágios avançados, a hemodiálise ou a diálise peritoneal são essenciais para controlar o excesso de ácidos e manter o pH estável.

Benefícios do tratamento

Manter o bicarbonato dentro da faixa ideal traz benefícios clínicos comprovados:

  • Retarda a progressão da DRC;
  • Preserva músculos e ossos;
  • Melhora o apetite e o estado nutricional;
  • Aumenta a resposta à eritropoetina (usada na anemia renal);
  • Reduz hospitalizações e mortalidade.

Conclusão

A acidose metabólica na Doença Renal Crônica é uma complicação silenciosa, mas com efeitos profundos. Seu controle é essencial para preservar a função renal, proteger ossos e músculos e melhorar a sobrevida do paciente.

O acompanhamento regular com nefrologista e nutricionista, associado à terapia alcalinizante precoce, é o caminho para restaurar o equilíbrio ácido-base e proporcionar mais qualidade de vida.

Cuidar da acidose é cuidar dos rins — e de todo o corpo. 💧⚖️

 Referências bibliográficas

  1. Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN). Diretrizes Clínicas para o Manejo da Acidose Metabólica na Doença Renal Crônica. São Paulo: SBN, 2023.
  2. Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO). Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease. Kidney Int Suppl. 2020;10(4):e1–e115.
  3. Kraut, J. A., & Madias, N. E. (2021). Metabolic Acidosis of CKD: An Update. Kidney International, 99(1), 56–68.
  4. National Kidney Foundation (NKF). Metabolic Acidosis and Chronic Kidney Disease. https://www.kidney.org. Acesso em: 10 out. 2025.
  5. de Brito-Ashurst, I., et al. (2009). Bicarbonate Supplementation Slows Progression of CKD and Improves Nutritional Status. J Am Soc Nephrol, 20(9):2075–2084.