Síndrome Nefrótica: fisiopatologia, manifestações clínicas e tratamento

A síndrome nefrótica é um conjunto de sinais e sintomas resultantes de lesão glomerular que leva à perda maciça de proteínas pela urina.
Síndrome nefrótica

A síndrome nefrótica é um conjunto de sinais e sintomas resultantes de lesão glomerular que leva à perda maciça de proteínas pela urina. Ela representa um importante grupo de doenças renais, podendo afetar crianças e adultos, com etiologias distintas e evolução clínica variável. Seu reconhecimento precoce é fundamental, pois a síndrome está associada a complicações metabólicas relevantes, maior risco cardiovascular e potencial progressão para doença renal crônica. https://www.miglimed.com.br/nefrologia/

Definição e critérios diagnósticos

A síndrome nefrótica é caracterizada classicamente pela presença de quatro achados principais:

1.Proteinúria maciça: geralmente superior a 3,5 g/24h em adultos, ou relação proteína/creatinina urinária > 2000 mg/g.

2.Hipoalbuminemia: níveis séricos de albumina < 3,0 g/dL.

3.Edema generalizado (anasarca): decorrente da redução da pressão oncótica plasmática.

4.Hiperlipidemia e lipidúria: aumento de colesterol e triglicerídeos e presença de corpos graxos na urina.

Embora esses critérios sejam clássicos, a apresentação clínica pode variar conforme a etiologia, idade e gravidade da doença.

Fisiopatologia

A síndrome nefrótica é causada por uma lesão na barreira de filtração glomerular, que inclui o endotélio, a membrana basal glomerular e os podócitos. Essa barreira é responsável por impedir a passagem de proteínas para a urina. Quando há dano estrutural ou funcional, ocorre aumento da permeabilidade glomerular, permitindo a perda de proteínas plasmáticas, principalmente albumina.

A hipoalbuminemia resultante diminui a pressão oncótica do plasma, favorecendo o extravasamento de líquido para o interstício, ocasionando edema. Além disso, o fígado aumenta a síntese de lipoproteínas em resposta à queda da albumina, levando à hiperlipidemia.

Etiologias: primárias e secundárias

A síndrome nefrótica pode ser dividida em:

1. Causas primárias ou idiopáticas: Resultam de doenças glomerulares que afetam diretamente o rim:

•Doença de lesões mínimas (DLM): principal causa em crianças.

•Glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF): comum em adultos, associada a mau prognóstico.

•Nefropatia membranosa (NM): causa frequente em adultos, associada a anticorpos anti-PLA2R.

•GN Membranoproliferativa

•Nefropatia por IgA

2. Causas secundárias

Originam-se de doenças sistêmicas que acometem os rins, como:

•Diabetes mellitus (nefropatia diabética)

•Lúpus eritematoso sistêmico

•Amiloidose

•Infecções (hepatite B, C, HIV)

•Drogas (AINEs, lítio, ouro, interferon)

•Neoplasias

A investigação etiológica é fundamental para orientação terapêutica.

Manifestações clínicas

1. Edema: É a manifestação predominante. Pode surgir inicialmente em regiões declivosas, como tornozelos, progredindo para anasarca, ascite e derrame pleural.

2. Ganho de peso: Decorrente da retenção hídrica.

3. Urina espumosa: Indicativa de proteinúria importante.

4. Fadiga e mal-estar:  Relacionados à hipoalbuminemia e ao estado inflamatório.

5. Complicações tromboembólicas

A síndrome nefrótica é um estado de hipercoagulabilidade, aumentando o risco de trombose de veia renal, trombose venosa profunda e embolia pulmonar.

6. Suscetibilidade a infecções

Principalmente por perda urinária de imunoglobulinas e proteínas do complemento.

7. Distúrbios metabólicos: Incluem hiperlipidemia, hipocalcemia e deficiência de vitamina D.

Diagnóstico

O diagnóstico envolve avaliação clínica, laboratorial e imagem.

Exames laboratoriais

•Urina tipo I: revela proteinúria intensa e lipidúria.

•Proteinúria de 24 horas ou relação proteína/creatinina.

•Albumina sérica e perfil lipídico.

•Função renal (ureia, creatinina).

•Imunológicos: FAN, complemento, anti-PLA2R.

•Sorologias para hepatites e HIV.

Biópsia renal

É o padrão-ouro para diagnóstico etiológico, principalmente em adultos. Em crianças com quadro típico da doença de lesões mínimas, pode não ser necessária.

Tratamento

O manejo depende da causa subjacente, da gravidade da doença e da presença de complicações.

1. Corticoterapia:

É o tratamento de primeira linha na doença de lesões mínimas e na GESF sensível a esteroides. A prednisona é o fármaco mais utilizado.

2. Imunossupressores: 

Indicados em casos resistentes aos corticoides ou em doenças específicas, como:

•Ciclosporina

•Tacrolimo

•Micofenolato mofetil

•Rituximabe (especialmente na nefropatia membranosa)

3. Tratamento não imunológico

Inclui medidas sintomáticas e de suporte:

•Controle do edema: restrição de sódio, diuréticos (furosemida ± tiazídicos).

•Hipertensão: uso de IECA ou BRA, que também reduzem proteinúria.

•Dislipidemia: estatinas.

•Anticoagulação: em casos de alto risco trombótico.

4. Controle da doença de base

Essencial nas causas secundárias, como diabetes e lúpus.

Prognóstico

O prognóstico varia conforme a etiologia:

•Doença de lesões mínimas tem excelente resposta a esteroides.

•GESF e nefropatia membranosa podem evoluir para insuficiência renal crônica.

•Nefropatia diabética e amiloidose têm curso progressivo e demandam controle rigoroso da doença sistêmica.

A presença de trombose, infecções graves e insuficiência renal aguda piora o prognóstico.

Conclusão

A síndrome nefrótica representa uma condição clínica complexa, multifatorial e com grande impacto na saúde do paciente. O diagnóstico precoce, a identificação da etiologia e o manejo adequado das complicações são fundamentais para melhorar a qualidade de vida e reduzir a morbimortalidade. A abordagem deve ser multidisciplinar, envolvendo nefrologista, nutricionista, cardiologista e equipe de enfermagem. Com tratamento individualizado, muitos pacientes conseguem bom controle da doença e redução das complicações.

Referências Bibliográficas

1.KDIGO Clinical Practice Guideline for Glomerular Diseases. Kidney International. 2021. https://kdigo.org/guidelines/gd/

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