A Doença Renal Crônica (DRC) é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo, afetando milhões de pessoas e aumentando significativamente o risco de complicações sistêmicas. Entre essas complicações, a doença cardiovascular (DCV) é, sem dúvida, a mais grave.
Pacientes com DRC têm risco até 20 vezes maior de morrer por complicações cardiovasculares do que a população geral, sobretudo nos estágios mais avançados da doença. Mesmo antes de necessitar de diálise, esses indivíduos já apresentam alterações estruturais e funcionais no sistema cardiovascular. Por isso, entender essa associação é fundamental para pacientes, familiares e profissionais de saúde. https://miglimed.com.br/doenca-renal-cronica-causas-sintomas-e-prevencao/
Por que a DRC aumenta tanto o risco cardiovascular?
A relação entre rins e coração é intensa e bidirecional. Quando os rins começam a falhar, uma série de alterações metabólicas, hormonais e inflamatórias se instala, favorecendo a progressão da doença cardiovascular.
1. Hipertensão arterial
Os rins exercem papel central no controle da pressão arterial. Na DRC, ocorre retenção de sódio e água, ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) e rigidez vascular — fatores que levam à hipertensão, principal “motor” da lesão cardiovascular em renais crônicos.
2. Inflamação crônica e estresse oxidativo
A DRC é um estado inflamatório contínuo. O excesso de toxinas urêmicas aumenta o estresse oxidativo, promovendo aterosclerose acelerada, disfunção endotelial e rigidez arterial.
3. Distúrbios do metabolismo mineral (DMO-DRC)
Alterações no cálcio, fósforo e PTH geram calcificação vascular, especialmente nas artérias coronárias e na aorta. Isso torna os vasos rígidos e aumenta significativamente o risco de infarto e insuficiência cardíaca.
4. Anemia da DRC
A falta de eritropoietina leva à anemia, que sobrecarrega o coração, contribuindo para hipertrofia ventricular esquerda (HVE) e insuficiência cardíaca.
5. Sobrecarga de volume
Pacientes com insuficiência renal têm maior facilidade de reter líquidos, o que leva à congestão cardiopulmonar, hipertensão e descompensação cardíaca.
6. Dislipidemia típica da uremia
O perfil lipídico do doente renal favorece a formação de placas ateroscleróticas resistentes ao tratamento convencional.
Principais manifestações cardiovasculares na DRC
A DRC está associada a praticamente todas as formas de doença cardiovascular. Entre as mais frequentes estão:
1. Hipertrofia ventricular esquerda (HVE)
Presente em até 80% dos pacientes em diálise, resulta do esforço do coração para vencer a pressão arterial elevada e a anemia. A HVE é um forte preditor de mortalidade.
2. Insuficiência cardíaca
Decorre da sobrecarga de volume, hipertensão e alterações estruturais no coração. É uma das principais causas de hospitalização em pacientes renais.
3. Doença arterial coronariana (DAC)
Pacientes com DRC têm alta prevalência de aterosclerose acelerada, com maior risco de angina e infarto agudo do miocárdio.
4. Arritmias cardíacas
Alterações eletrolíticas — como hiperpotassemia — são comuns na DRC e aumentam o risco de arritmias potencialmente fatais.
5. Calcificação vascular
Manifesta-se nas artérias coronárias, periféricas e valvas cardíacas, contribuindo para estenose aórtica, rigidez arterial e aumento da pós-carga.
6. Morte súbita cardíaca
Uma das principais causas de óbito entre pacientes em diálise, relacionada a arritmias malignas, HVE e alterações eletrolíticas.
Como diagnosticar a doença cardiovascular na DRC
O diagnóstico é baseado em avaliação clínica, exames laboratoriais e testes cardiológicos, incluindo:
- pressão arterial seriada
- eletrocardiograma
- ecocardiograma
- dosagem de troponina e BNP/NT-proBNP
- cálcio, fósforo, PTH e vitamina D
- perfil lipídico e glicemia
- testes de esforço ou cintilografia quando indicado
A avaliação deve ser contínua, já que o risco cardiovascular aumenta conforme o declínio da função renal.
Estratégias de prevenção e tratamento
Embora a DRC seja um fator de risco independente, grande parte das complicações cardiovasculares pode ser prevenida com manejo adequado. Entre as medidas essenciais estão:
1. Controle rigoroso da pressão arterial
- Alvo < 130/80 mmHg
- Preferência por IECA ou BRA, que protegem rim e coração.
2. Tratamento da anemia
Eritropoetina e reposição de ferro reduzem a sobrecarga cardíaca.
3. Manejo da doença mineral e óssea
Controle de fósforo, uso de quelantes, vitamina D e calcimiméticos ajudam a prevenir calcificação vascular.
4. Controle do volume
Dietas hipossódicas e o uso adequado de diuréticos (nos estágios não dialíticos) reduzem a congestão e o risco de insuficiência cardíaca.
5. Controle da dislipidemia
Estatinas são recomendadas nos estágios 1–4 da DRC, reduzindo eventos cardiovasculares.
6. Estilo de vida saudável
- alimentação equilibrada
- cessação do tabagismo
- atividade física regular
- controle rigoroso do diabetes
7. Tratamento dialítico adequado
Na diálise, o controle do potássio, cálcio, fósforo e do volume removido é fundamental para prevenir arritmias e descompensações cardíacas.
Conclusão
A doença cardiovascular é a principal causa de morte em pacientes com Doença Renal Crônica, mesmo antes da necessidade de diálise. Os mecanismos que explicam essa associação são múltiplos e envolvem hipertensão, inflamação, anemia, calcificação vascular e distúrbios minerais.
No entanto, uma abordagem multidisciplinar — envolvendo nefrologista, cardiologista, nutricionista e equipe multiprofissional — pode reduzir drasticamente esses riscos, melhorar a qualidade de vida e aumentar a sobrevida dos pacientes.
Cuidar do coração é parte fundamental do cuidado renal.
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